quinta-feira, 5 de maio de 2016

“Sinto-me orgulhoso por fazer parte da equipa physioclem, que está sempre disponível para fazer mais e melhor”






Há uma escada. Os olhos vão-se perdendo na beleza do palacete. Quando se abre a porta da physioclem, em Alcobaça, há um sorriso, uma voz, que nos espera sempre com o mesmo entusiasmo. É pai, avô, sogrinho, colaborador… Sinceramente, é muito mais. É o senhor Carlos. O senhor Carlos Clemente. 
Abraça o projeto do filho, Marco Clemente, como se fosse seu, desde o dia em que a physioclem nasceu. Passados 14 anos, o senhor Carlos continua a trabalhar com a mesma vitalidade e empenho.
O dia começa bem cedo. No dia anterior, prepara a agenda, que não se prende apenas com o atendimento na clínica. Há as netas, três, e o neto. “Normalmente, tenho 20 alarmes no meu telemóvel. Vou por uma a um lado, depois vou buscar outra… Isto deixa-me muito feliz”, testemunha.  
Não é em Alcobaça que começa a história de Carlos Clemente, de 63 anos. Cresceu em Leiria, mas nasceu em Valado dos Frades, na casa de uma tia. “O meu pai era chofer de autocarros. A minha mãe era doméstica e para não estar sozinha em Leiria, durante o parto, o meu pai pediu-lhe que ficasse uns dias em casa da minha tia Emília”. Passadas algumas semanas, regressa à capital de distrito.
O que muitos não sabem é que o ar malandro e traquina de Carlos Clemente já vem desde pequeno. “Sempre gostei de pregar partidas. O meu nome era “frasquinho de veneno”, porque estava sempre pronto para malandrices. O meu neto Manel sai a mim. Nós é que não vamos permitindo”, refere, entre sorrisos.
Além de malandro, era guloso. Como os pais não tinham muitas posses financeiras, e gostava de guloseimas, aproveita para vender o que podia a uma sucata que havia perto de casa: “apanhava papel, cobre, latas e, até, ossos de cavalos. Com o dinheirito que recebia ía comprar suspiros, sandes de atum e os chapéus de chocolate Regina, que me custavam 25 tostões”.

Interrompendo a história.
A neta mais velha está na sala ao lado com amigas. Levanta-se e pede silêncio, porque é um local de trabalho e as pessoas precisam de concentrar-se.
Retomando a história. 

A guerra fazia-se sentir em África. O pai, um homem autoritário, mas muito zeloso da família, decidiu, antes que os dois filhos tivessem que se alistar, partir para a Alemanha. Com 13 anos, Carlos Clemente mudava a sua vida. Confessa que se habituou rápido e que facilmente aprendeu a falar alemão, servindo sempre de intérprete aos pais, Gabriel Clemente e Maria Rosa Oliveira. “Quando se é jovem aprende-se tudo. Dei muitos pontapés na gramática, mas sei ler e falar em alemão, escrever é que é complicado”. Com 14 anos, acompanhado pelo pai e irmão, foi trabalhar para uma fábrica de vidro, onde aprendeu a soprar vidro. A unidade fecha e segue para outra na qual se faziam chapas, através de vidro líquido, para barcos e carros.
É na Alemanha que começa, também, a história de amor da sua vida. Os seus sogros, na ocasião amigos da família, tinham cinco filhos. Dois, os mais velhos, partiram com os pais, três ficam em Valado dos Frades, concelho da Nazaré. Com quem? Com a tia de Carlos Clemente, na casa onde tinha nascido.
Rosália Teixeira Clemente, o amor da sua vida, chega um ano depois. Todos os fins de semana as famílias encontravam-se. O amor foi crescendo. Aos 16 anos pede namoro a Rosália, mas a resposta foi negativa. Não desistiu. Três anos depois, chega a resposta pela qual ansiava desde que tinha visto, pela primeira vez, a menina lourinha. Não só começaram a namorar, como passado pouco tempo casaram-se. “Ela é branco, eu sou preto. Não temos nada a ver um com o outro, mas é aí que nos encontramos. É 100% certinha, uma mulher maravilhosa, uma mãe espetacular e uma avó amiga”.

Interrompendo a história. 
No meio da conversa o telefone toca e a porta abre-se várias vezes. O entusiasmo e boa disposição do senhor Carlos é sempre o mesmo. Quem entra na Clinica do Marco, assim conhecida por muitos, responde com sorrisos, e algumas dores. 
Retomando à história.

Três anos depois do enlace matrimonial, nasce o primeiro filho, Marco. “Eu trabalhava na fábrica e a minha mulher era costureira. Vivíamos uma história de amor. Juntámos dinheiro e construímos uma casa em Portugal, em Valado dos Frades. “Desde o primeiro dia do meu casamento que disse à minha mulher que um dia regressaríamos a Portugal”. O Marco entra para a creche e, entretanto, nasce o segundo filho, Jorge. O mais novo nunca se habituou ao infantário. Rosália acaba por se despedir para tomar conta dos filhos. Sempre que podia, a mulher fazia umas limpezas. Chegaram a distribuir publicidade pelas caixas de correio, para de alguma forma colmatar o ordenado que tinha deixado de entrar. 
Quando chegou o momento do filho mais novo entrar para a escola, Carlos Clemente decidiu regressar a Portugal. “Para a minha Rosália, foi uma decisão de morta. Sempre gostou muito de viver na Alemanha”.

Interrompendo a história.
O telefone toca. É a norinha. Há uma neta que precisa de um saco. Pede desculpa, despe a bata e vai resolver o problema.
Retomando à história. Um dia depois.

Foi trabalhar para a Spal. Se na Alemanha levava para casa 300 contos, aqui somava apenas oito contos. Já noutra empresa da região, distribuía papel de computador. Começa a chegar o momento dos filhos seguirem para a universidade e o dinheiro não era o mesmo de outros tempos. Faz as malas, junto com a sua Rosália, e parte novamente para a Alemanha. “Desta vez foi doloroso partir. Deixava dois jovens, num momento delicado. Dois rapazes com quem tinha a maior afinidade. No meu lar, sempre houve muito amor e cumplicidade”.
Não sabia sequer andar de bicicleta, mas acaba por ir trabalhar para uma empresa que se dedicava a este ramo de atividade. Arranjava e entregava bicicletas ao domicílio. Corria bem a vida, quando teve um enfarte. Um momento que marcou, novamente, a sua vida. “O meu Marco ía casar-se, já estava tudo preparado para virmos a Portugal… A cirurgia acontecia nesse dia. Pedi que não adiassem o casamento. A minha Rosália veio e eu assisti ao casamento, às palavras, por telefone. A minha nora arranja sempre solução”, recorda.
Passados dois anos, regressa a Portugal. Enquanto procurava trabalho, o filho Marco pensava em abrir uma clínica. Desde o primeiro dia que é o rosto da entrada quando se abre a porta ao mundo da physioclem. “Apesar de ser analfabeto”, gosto muito das novas tecnologias. Se não sei mexo até aprender. Sinto-me o braço direito do meu filho. Aqui sou pai, avô, empregado… Tudo na mesma pessoa”, refere, feliz.
Ao peito criou uma das netas, entre atendimentos de telefone e outros trabalhos na clínica. “A minha Maria João não se adaptou ao Jardim de Infância. Das 8:30 às 20 horas, carregava-a no canguru, só à hora de almoço é que substituía pelo Marco ou pela Vânia”. Foram cerca de dois anos assim. Na physioclem as manas Maria João e Diana eram os miminhos da casa. Enquanto uma dava os primeiro passos, a outra gatinhava. No momento das mamadas, Carlos Clemente levava a menina mais nova à nora que trabalhava num gabinete nas piscinas de Alcobaça. Entretanto, chega a D. Quina que começa a tomar conta das meninas. 
Há cerca de três anos, face aos horários, decide vender a casa de Valado dos Frades e comprar um apartamento em Alcobaça, que fica perto da casa do filho. “Sempre que são necessários serviços de babysitting, basta descer o elevador. Partilhamos a mesma garagem”.
A physioclem, afirma Carlos Clemente, é uma casa estruturada, firme, com mais de nove mil utentes, só em Alcobaça. “Aqui tratamos toda a gente por igual. Sinto-me orgulhoso por fazer parte desta equipa, que está sempre disponível para fazer mais e melhor”. Daqui a dois anos, pretende entrar na reforma, mas, confessa, que de alguma forma terá de continuar ligado à physioclem. 
A malandrice continua a ser uma das suas caraterísticas. Todos os dias tem de pregar uma partida ou dizer uma “mentirinha”. “Continuo a ser o mesmo malandreco de antigamente. Sinto-me um jovem de cabeça, apenas preciso de praticar exercício físico”.

Concluindo a história.
A alegria da vida encontra-se em pequenos pormenores que, por vezes, passam despercebidos. A alegria é um motor de jovialidade. Manter um espírito jovem faz bem não a si, como a quem o rodeia. O senhor Carlos sabe e sente isso…

Luci Pais


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