quarta-feira, 20 de novembro de 2013

LMELT – A influência da implementação de um programa de ginástica laboral (GL) a nível empresarial



A. Almeida & J. Margarido

 

Resumo


Objetivo – Analisar a influência da implementação de um programa de GL de compensação na referência e intensidade de dor/desconforto físico, em trabalhadores da empresa Promol – Indústria de Velas.
Metodologia – Tratou-se de um estudo quantitativo e descritivo de carácter exploratório, sendo utilizada uma amostra composta por 7 pessoas (todas do sexo feminino), com uma média de idade de 51,1 anos. Para a recolha de dados foi utilizada uma versão adaptada do questionário nórdico músculo-esquelético (QNM) e a escala EVA, aplicados antes e depois da implementação do programa de GL.  O programa foi aplicado durante 4 meses, com uma frequência de 1 vez por semana, cada sessão com duração de 45min.
Resultados – Verificou-se que a percentagem total de referências de dor antes da implementação do programa de GL era 28,6% e no final 14,3%. As principais áreas referidas com presença de dor no início foram coluna cervical e punhos/mãos com 71,4% e no final foram as mesmas áreas mas com 42,9%. As áreas com intensidade mais elevada, no início, foram coluna cervical, punhos/mãos, coluna lombar, joelhos e tornozelos/pés com intensidade média 5 e no final do programa a intensidade diminuiu em todas as áreas, principalmente  nos ombros e pernas/joelhos (EVA – 0), coluna cervical e punhos/mãos (EVA – 3).
Conclusão - A implementação do programa de GL ajudou a diminuir as queixas álgicas associadas ao trabalho nos elementos da amostra, a nível do número total de referências de dor, das várias áreas corporais e da intensidade das queixas.

Palavras – Chave: Lesões músculo-esqueléticas ligadas ao trabalho (LMELT), ginástica laboral (GL), dor, stretching global ativo (SGA).  



INTRODUÇÃO

A designação lesões músculo-esqueléticas relacionadas ou ligadas ao trabalho (LMERT ou LMELT) inclui um conjunto de doenças profissionais altamente incapacitantes, inflamatórias e degenerativas do sistema locomotor (isto é músculos, tendões, ossos, cartilagem, ligamentos, nervos e sistema vascular periférico).
Os movimentos estereotipados, os gestos frequentes, a aplicação de força, as posturas extremas (fora dos ângulos inter-segmentares de conforto articular) e a ausência de períodos de recuperação entre tarefas, constituem os principais fatores de risco no desenvolvimento das lesões músculo-esqueléticas (LME) (Serranheira & Uva, 2002). Caracterizam-se por uma sintomatologia que, frequentemente, engloba dor, parestesias, sensação de peso e fadiga (Serranheira & Uva, 2002).
As LMELT são uma das maiores causas de lesão industrial e são problemáticas pela incapacidade que provocam no trabalhador e pelo que custam às organizações em produção perdida, absentismo por doença, seguros e outros. Em suma, trata-se de um problema individual, organizacional e social com custos incalculáveis (Bernard (1997) citado por Santos J. (2009)).
Estes problemas músculos-esqueléticos devem ser abordados por uma estratégia global de prevenção ou eliminação dos fatores de risco de ordem profissional (prevenção primária) e conjugado com modalidades visando a redução da duração da incapacidade (prevenção terciária) (Costa & Branco, 2002).
 
A prevenção passa principalmente pelo estudo dos postos de trabalho, educação gestual, ginástica laboral (GL), pausas de repouso, respeito pelas prescrições legais de cargas, utilização mais alargada de automatização, entre outros (Costa & Branco, 2002). Relativamente à GL, esta corresponde a um programa específico de atividade física implementado em empresas e consiste na realização de exercícios programados previamente (Mascelani, 2001 cit in Poletto, 2002). É realizada com vista a promover a compensação de movimentos e esforços físicos, bem como o relaxamento dos trabalhadores nos seus próprios ambientes de trabalho (Mascelani, 2001 cit in Poletto, 2002).
Segundo Polito (2002 cit in Poletto, 2002), a GL constitui uma série de exercícios diários, realizados no próprio local de trabalho, levando à prevenção de lesões ocupacionais, normalizando as suas funções corporais e proporcionando momentos de descontração e socialização entre os funcionários dessa empresa.
A GL representa um avanço não só para a prevenção de doenças ocupacionais, mas também um agente motivador de mudança para um estilo de vida mais saudável (Bertolini, 1999 cit in Poletto, 2002). No entanto, existe uma diversidade de doenças ocupacionais resultantes dos diversos tipos de atividade desempenhada.
Neste sentido e segundo Bertolini (1999 cit in Poletto, 2002), existem várias modalidades de GL que são classificadas de acordo com o objetivo a que se destinam. A modalidade mais utilizada é a GL de compensação que consiste na realização de exercícios físicos durante as pausas de trabalho, interrompendo a monotonia operacional e aproveitando esses intervalos para executar exercícios específicos de compensação aos esforços repetitivos e às posturas inadequadas nos postos operacionais (Poletto, 2002). Estes exercícios poderão ser, por exemplo, exercícios de estiramento muscular, de estabilização central, entre outros.
Para Zilli (2002 cit in Poletto, 2002), os programas de GL podem ser adequados e rentáveis a qualquer tipo de empresa, desde que seja conhecido previamente o sistema de trabalho, atividades laborais e esforços físicos, de forma a que os exercícios estejam adaptados aos diferentes grupos e setores da empresa. O envolvimento com as áreas de Segurança e Medicina do Trabalho promovem a prevenção de acidentes e doenças ocupacionais, através do diagnóstico ergonómico detalhado da empresa e da informação quanto à saúde dos trabalhadores envolvidos no programa.

 

METODOLOGIA


 A realização deste trabalho teve como objetivo avaliar a influência da implementação de um programa de GL de compensação na referência e intensidade de dor/desconforto físico, em trabalhadores da empresa Promol – Indústria de Velas. Neste estudo foi considerado que dor/desconforto físico corresponde a sensação dolorosa e parestesias (dormência, formigueiro, sensação de peso).

 


Amostra

Neste trabalho pretendeu-se efetuar um estudo quantitativo e descritivo de carácter exploratório, sendo utilizada uma amostra composta por 7 pessoas (todas do sexo feminino). A média de idade da amostra é de 51,1 anos, a média de peso 71,6 kg e a média de atividade laboral 24,6 anos. Trata-se de uma amostra não probabilística selecionada por critérios de conveniência tendo em conta critérios de inclusão (ser trabalhador da Promol há pelo menos um ano; trabalhador com episódio(s) de queixas de dor/desconforto físico nos últimos 12meses; trabalhador com disponibilidade de horário pós-laboral) e critérios de exclusão (trabalhador iniciar tratamento de fisioterapia durante aplicação de programa de GL; situação de baixa por acidente de trabalho ou outra situação; percentagem de faltas às sessões de GL superior a 35% do número total de sessões).
 

Instrumentos de recolha de dados

Foi utilizada uma versão adaptada do questionário nórdico músculo-esquelético (QNM) (Serranheira et al, 2003) e a escala visual análoga (EVA). Também, foi realizada uma tabela para registo de assiduidade e um questionário de satisfação com recurso à escala de Likert.   


Procedimentos e tratamento de dados

Para a realização deste estudo foi efetuada uma avaliação inicial com aplicação do QNM e da escala EVA a todos os trabalhadores que mostraram interesse em participar nas sessões de GL. Posteriormente, tendo em conta o tipo de atividade laboral desempenhada e os resultados iniciais, foi definido um programa de GL de compensação. O programa foi aplicado durante 4 meses, com uma frequência de 1 vez por semana, cada sessão com duração de 45min e utilizadas técnicas de stretching global ativo (SGA) e alongamentos analíticos.

Após decorridos os 4 meses foi efetuada uma avaliação final com aplicação dos mesmos questionários/escalas usados na avaliação inicial e aplicação de um questionário de satisfação com 3 afirmações:

1 - Na sua opinião, no geral sentiu melhoria das suas dores com a realização da GL;
2 - Na sua opinião, a realização da GL foi benéfica para a melhoria do bem estar geral;
3 - Na sua opinião, é importante continuar a realizar a GL.

Para o processamento dos dados estatísticos, foi utilizado o programa Microsoft® Office Excel® 2007.

  

 

RESULTADOS 


Após análise dos QNM, verificou-se que a percentagem total de referências de dor nos últimos 7 dias antes da implementação do programa de GL era 28,6%.

No final da implementação do programa a percentagem total de referências nos últimos 7 dias era 14,3% (gráfico 1).
 


 
Gráfico 1 – Percentagem total de referências de dor no início e no final da implementação do programa de GL.



As principais áreas referidas com presença de sintomatologia de dor, nos últimos 7 dias, antes do início da GL, foram coluna cervical e punhos/mãos (71,4%), ombros, coluna lombar, pernas/joelhos e tornozelos/pés (28,6%). Após a implementação do programa de GL, registou-se uma diminuição da percentagem de referências de dor principalmente para a área da coluna cervical e punhos/mãos (42,9%), ombros e pernas/joelhos com ausência de referências (0%). A percentagem de referências para tornozelos/pés manteve-se igual (gráfico 2).

 

 
Gráfico 2 – Percentagem total de referências de dor por zona corporal no ínicio e no final da implementação do programa de GL.
 
Relativamente à intensidade de dor por cada zona corporal, foi utilizada a EVA. Verificou-se que nos últimos 7 dias antes da implementação do programa de GL as áreas com intensidade mais elevada foram a coluna cervical, punhos/mãos, coluna lombar, joelhos e tornozelos/pés com intensidade média 5 e os ombros com intensidade média 4. No final da implementação do programa a intensidade da dor tinha diminuído em todas as zonas corporais, principalmente  nos ombros e pernas/joelhos com intensidade média 0, coluna cervical e punhos/mãos com intensidade média 3 (gráfico 3).
 
 

 
Gráfico 3 – Resultados da EVA (intensidade média) por zona corporal no ínicio e no final da implementação do programa de GL.
 

Resultados dos questionários de satisfação 


No que diz respeito aos questionários de satisfação aplicados no final do programa de GL, verificou-se que na primeira afirmação 57,1 % da amostra respondeu concordo totalmente e 42,9% concordo. Na segunda afirmação, 71,4% selecionou concordo totalmente e 28,6 concordo. Para a última afirmação, 42,9 % da amostra respondeu concordo totalmente e 57,1 % concordo. Para as restantes opções da escala de Likert em todas as afirmações obteve-se 0% (gráfico 4).  

 

 
Gráfico 4 – Resultados do questionário de satisfação das classes de GL.




DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 



Na fase de avaliação inicial, todos os elementos da amostra tinham efetuado uma paragem de descanso laboral de 2 semanas e referiram que devido a isso apresentavam menos queixas do que o habitual. Esta paragem poderá ser um fator que terá levado ao resultado de uma reduzida percentagem total do número de referências de dor inicial. No entanto, através dos resultados obtidos verifica-se a influência do programa de GL com uma redução de 50% na percentagem total final.

No que diz respeito às áreas corporais, as principais referidas com presença de sintomatologia de dor, no início e final da GL, foram coluna cervical e punhos/mãos, o que vai de encontro ao tipo de atividade laboral executada (predominantemente atividades repetitivas de preensão grossa e fina). Contudo, registou-se uma diminuição de 40%, para ambas as áreas, no final da implementação do programa de GL.

Relativamente à intensidade média de dor por cada zona corporal, verificou-se uma diminuição em todas as áreas comparativamente entre os resultados iniciais e finais, existindo até áreas que deixaram de apresentar queixas, nomeadamente ombros e pernas/joelhos.

Em relação aos resultados dos questionários de satisfação sobre os efeitos do programa de GL, todos os participantes expressaram as suas opiniões em “concordo” e “concordo totalmente”, o que reflete a relevância deste tipo de programas nas empresas por parte dos trabalhadores.
 



CONCLUSÃO DO ESTUDO  


Através da análise de todos os dados, pode-se concluir que neste estudo a implementação do programa de GL de compensação ajudou a diminuir as queixas álgicas associadas ao trabalho nos vários elementos da amostra utilizada, quer a nível do número total de referências de dor, das várias áreas corporais e da intensidade das queixas, o que vai de encontro a outros estudos do mesmo âmbito. No entanto, devido à dimensão reduzida da amostra estas conclusões não podem ser aplicadas à população.  Assim, salienta-se a extrema necessidade de efetuar mais estudos no sentido de se comprovar os efeitos da GL nas referências de dor e suas características, em populações semelhantes, assim como avaliar os benefícios para a própria empresa, tentando utilizar amostras de dimensão mais elevada e períodos de implementação dos programas de GL maiores. Por outro lado, Coulter (1994 cit in Stude, 1999) menciona que existe uma crescente concordância sobre a satisfação do cliente ser um indicador importante da qualidade dos serviços de saúde. Desta forma, considerou-se relevante perceber a opinião dos participantes deste estudo sobre a implementação do programa de GL. Neste âmbito, da análise das opiniões expressas pelos elementos da amostra, pode dizer-se que o programa de GL de compensação parece ter efeitos positivos no bem-estar geral, descontração e socialização.
 

BIBLIOGRAFIA 


Costa, T., & Branco, P. (2002). Doenças Reumáticas Ligadas ao Trabalho - Lesões Músculo-Esqueléticas Ligadas ao Trabalho: Lombalgias em Medicina do Trabalho [Compact Disk]. Lisboa: Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas.
Miranda, L. C., & Uva, A. S. (2002). Doenças Reumáticas Ligadas ao Trabalho - A Medicina do Trabalho e as LMELT: sua importância em patologia do trabalho. [Compact Disk]. Lisboa: Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas.
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Serranheira, F., & Uva, A. S. (2002). Doenças Reumáticas Ligadas ao Trabalho - Lesões Músculo-Esqueléticas Ligadas ao Trabalho: Aspectos Gerais de Diagnóstico e Prevenção [Compact Disk]. Lisboa: Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas.
Serranheira, F., Santos, S., Pereira, M., & Cabrita, M. (2003). Auto-Referência de Sintomas de Lesões Músculo-esqueléticas Ligadas ao Trabalho (LMELT) numa Grande Empresa em Portugal. Revista Portuguesa de Saúde Pública, 2.
Stude, D. E. (1999). Spinal Rehabilitation (1st ed.). USA: Appleton & Lange.