quinta-feira, 7 de abril de 2016

“A physioclem tem o ambiente mais familiar que conheço”






Há sorrisos que ficam para a história. Há histórias que jamais esqueceremos. Há momentos que valem um milhão. A Ana tem o sorriso. E uma história que vale o milhão. Passados alguns minutos de conversa, esquecemos que esta menina mulher tem uma paralisia cerebral. As suas palavras são mais fortes do que tudo o resto. Apagamos a palavra deficiência da cabeça e mergulhamos numa vida. Nesta vida, que é um exemplo.

Torres Vedras. Tarde do dia 5 de março de 2016. Instalações da physioclem. Ana Duarte Lourenço Lucas. 21 anos. Nasceu com paralisia cerebral. Frequenta o 4º ano de Psicologia, em Lisboa.
Podíamos ficar por aqui e já saberíamos alguma coisa sobre a Ana, mas esta jovem é muito mais do que simples dados de identificação. Merece que a sua história seja um exemplo, seja partilhada. Uma verdadeira inspiração.
Desloca-se num andarilho. As dificuldades são todas as que pode imaginar. Subidas, descidas, passeios, obstáculos no caminho, falta de acessos… Mas isto nunca foi um entrave, apenas uma razão para pensar em outros planos.
Pensou ser várias coisas na vida: professora, bióloga. No entanto, acabou por desistir, tinha exemplos em casa e optou por outro caminho. A fisioterapia também era uma das suas paixões, mas como diz “por razões óbvias não fazia qualquer sentido”. 
O comportamento das pessoas foi sempre algo que a fascinou. Ficava a pensar em situações durante horas. O facto de frequentar instituições, nas quais havia pessoas em circunstâncias “idênticas ou piores”, também a ajudou a definir a sua trajetória escolar. “Acredito que nos podemos adaptar. É uma condição inerente. A psicologia pode ajudar-me e aos outros também”, testemunha Ana, que está a terminar o curso de Psicologia.
O curso tem sido um desafio, não por causa das notas, porque é uma excelente aluna. A psicologia é uma descoberta ou redescoberta. É o autoconhecimento. “Descobri que sou uma pessoa mais serena, com mais defesas para lidar com a vida. Sou muito teórica e sinto falta da prática”, confessa. 
Com a ajuda da informação adquirida, Ana tem conseguido repensar e racionalizar melhor a sua situação. “Redescubro-me todos os dias. Nunca tenho um dia igual ao outro. Este é o meu grande desafio, porque nunca sei como o meu corpo estará hoje”.
“Eu e o meu corpo somos uma grande equipa”. Foi esta a frase que percorreu quilómetros, enquanto se fazia a viagem de regresso. Uma lição, numa simples frase, para quem tenha ou não alguma deficiência. Que nos faz pensar quanto tempo lhe dedicamos, que ser seja em atividade ou pensamentos. É bom que se garanta que é o nosso “veículo”, durante esta passagem pela terra.
Até ao secundário, o seu percurso escolar foi feito na companhia de uma tarefeira. Ana acredita que talvez isso não tenha aproximado tantos os colegas, que gostam de estar entre eles e não a sentirem-se supervisionados por alguém. Neste momento, faz o seu dia-a-dia sozinha, entre casa e a escola, em Lisboa. “Não tenho muitos amigos, escolho-os sempre muito bem. São todos pessoas muito especiais. Na faculdade, aproximam-se sem se sentirem constrangidos, porque já não há uma tarefeira a acompanhar-me”.
A Ana é um jovem muito racional. Diz que sente falta do teatro, porque lhe desperta o lado emocional. “Percebi que a psicologia e o teatro têm grande complementaridade. Para sermos bons terapeutas temos que nos pôr na pele do outro. Gosto de analisar as expressões e os comportamentos, enquanto representam. O teatro faz-me vestir a pele das personagens. Procuro perceber como agiria se aquela pessoa entrasse no consultório”, explica.
Não, a Ana não é atriz. Gosta de ver e de assistir a peças. Neste momento, está a ponderar, inscrever-se, durante as férias, num minicurso de teatro. 
São os pais e o irmão, bem como os tios mais próximos, o verdadeiro porto de abrigo, embora tenha consciência que é a sua forma de estar e de pensar que a mantêm na linha condutora que escolheu. Também Ana é um dos casos em que se procurou ajuda em Cuba. A avó dizia com frequência: “ainda vais andar”. Confessa que nunca sentiu que isso fosse possível. Sabe é que pode melhorar e preservar o que tem, através do trabalho que faz.
Ana podia não ser hoje a jovem decidida que é, com sonhos e planos para concretizar. “Os meus pais sempre lutaram para que tivesse uma vida normal. Nunca passei por uma escola especial. Muitos diziam que não conseguiria ir para a universidade, a verdade é que estou a terminar o curso. Não me arrependo que os meus pais me tenham desafiado no mundo dos “normais”. Tenho contacto com o outro, mas sei que é aqui que quero estar”. As palavras de Ana continuam: “Biologicamente pertenço à aquele mundo, mas psicologicamente não sou de lá. Se tivesse feito outra opção, não seria o que sou hoje. A vida é uma constante escolha e acredito que todos temos de as fazer”.
Ao longo da sua vida, já percorreu diferentes instituições e clínicas. A physioclem entrou na sua vida há quase 5 anos. As fisioterapeutas Jessica Margarido, há mais tempo, e Cátia Almeida são “super simpáticas”. Ana refere que é o somatório de todos os espaços onde já passou. “A physioclem tem o ambiente mais familiar que conheço. Não há a ideia de industria aqui dentro. Há um acompanhamento personalizado”, testemunha.
“A fisioterapia torna-me mais funcional para o dia-a-dia. É um grande contributo para a manutenção”, esclarece Ana Lucas.
Os olhos azuis de Ana, o sorriso meigo e a sua forma adulta de estar na vida confirmam que a vida é para viver um dia de cada vez. Cruzar os braços pode parecer o caminho mais fácil, mas não é certamente o mais feliz. Ana é uma jovem feliz, porque sabe que esse sentimento procura-se no interior, na descoberta do ser…

Luci Pais

 

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