quarta-feira, 13 de abril de 2016

"Sou uma privilegiada por fazer o que amo, rodeada dos melhores profissionais que conheço”

 


 
Nasceu no Canadá. Cresceu nos Açores. Estudou em Lisboa. Vive nas Caldas da Rainha. Trabalha em Torres Vedras. Durante anos, Jessica Margarido saltou de um lado para o outro, mas hoje é no Oeste que concentra as energias. São três os homens - Miguel, Pedro (filhos) e Hugo (marido) - que tornam a vida desta senhora, de sorriso doce, tão especial.

É da paz do Açores que sente mais falta: “Abrir as janelas do quarto ou a porta de casa e ter o mar em qualquer ângulo de visão, dá-nos uma sensação de tranquilidade, de conquista, de liberdade…”. Talvez, por isso, não tenha hesitado quando chegou o momento de escolher o Oeste como “casa”. A proximidade com o mar… O marido conheceu-o em Vila Nova de Mil Fontes, também junto ao mar, durante umas férias de verão. Apaixonaram-se e o coração trouxe-a até às Caldas da Rainha. Todos os dias fazia-se à estrada para estreitar a ligação entre a cidade do Oeste e a Capital, onde trabalhava. “Com o passar do tempo, tornou-se cansativo e decidi enviar o currículo para a phsyioclem”, relembra. 
Aposta ganha e já passaram cerca de oito anos. Ana Amado, fisioterapeuta da physioclem em Leiria, saia da Unidade de Média Duração e Reabilitação da Unidade de Cuidados Continuados e Integrados, da Confraria de Nossa Senhora da Nazaré, ao abrigo de um protocolo, entrava a Jessica. Terminada a colaboração com aquela instituição, Marco Clemente já se encontrava a preparar a abertura da physioclem Torres Vedras. É neste espaço que trabalha até ao dia de hoje, agora só duas vezes por semana, porque desde janeiro também assume funções, com uma agenda mais completa, nas Caldas da Rainha. “Era o que mais queria, há já algum tempo, para estar mais perto de casa”, confessa.
O sotaque açoriano foi-se esbatendo com o tempo, mas garante que o do Pico, onde vivem os seus pais não é tão acentuado como o da Terceira. Ainda assim, e muito pela presença dos progenitores, há palavras que continuam a ser usadas: mapa (esfregona), gama (pastilha elástica), pana (alguidar), naifa (faca), garbiche (caixote do lixo). “Quando os meus pais estão por perto acabo por adotar, ainda que por alguns dias, algumas das expressões, que não são mais do que adaptações do inglês. Muitos dos açorianos estão ou estiveram emigrados pelos Estados Unidos da América e Canadá”.
Do Pico, além das paisagens inesquecíveis, há outras recordações. Aprendeu a tocar bandolim. Um instrumento de cordas, típico daquele arquipélago. Quando veio estudar para Lisboa, na Escola Superior de Tecnologia de Saúde, chegou a pertencer a uma tuna, mas hoje não tem por hábito tocar, apesar da insistência de Miguel e de Pedro. Ficou a promessa de relembrar e de preservar os bons tempos junto dos filhos, através dos sons daquele instrumento.
Antes do nascimento dos filhos, havia sempre um destino de férias em mente. Hoje, as viagens são mais entre Lisboa e os Açores. “Pelo menos duas vezes por ano, nomeadamente durante a época natalícia, estou com os meus. As viagens centram-se mais pela Europa, mas quando crescerem temos muito para descobrir”, testemunha Jessica. Regressar ao Pico é regressar às origens, apesar de parte da família continuar pelo Canadá. Lembro-me de subir às árvores, brincar livremente e de ver as chaves nas fechaduras das portas. Poderia demorar muito tempo entre a escola e casa que os meus pais não ficavam preocupados”, relembra a jovem fisioterapeuta. 
Quando veio estudar para Lisboa, sentiu-se perdida nos primeiros tempos. “Ao fim de semana víamos os colegas a ir para casa e nós ficámos por ali. Aos poucos acabámos por nos habituar e por criar uma família entre amigos”. Conhece os cantos e recantos de Lisboa. Aproveitava todos os momentos para viver a luz da Capital e sempre que podia dava uma escapadela até à beira mar, embora tenha o Rio Tejo como um dos seus encantos. Da janela do seu quarto, tinha-o como pano de fundo.
Sabe, embora sinta saudade, o que é estar longe. “A minha família sempre esteve separada geograficamente. Já foi mais doloroso, mas na fase em que estou da minha vida, sei perfeitamente que é assim que tem de ser. Sou uma mulher feliz e realizada com o que tenho”, salienta Jessica. Um dia, confessa, gostava de regressar aos Açores: “Era ali que gostava de viver a minha reforma”.
Há a família de sangue e depois aquela que o coração acaba por encontrar e preservar. Na physioclem encontrou uma segunda casa. Uma segunda família. “Antes da vida dar tantas voltas e das famílias crescerem, encontrávamo-nos com frequência. Como sempre gostei de cozinhar, ficava, normalmente, responsável pelas entradas. Foram várias as noites que passámos juntos”, lembra. O Marco Clemente é a sua referência: “só tenho pena de não trabalhar diretamente com ele, embora tenha também ao meu lado os melhores. Sou uma privilegiada por fazer o que amo, rodeada dos melhores profissionais que conheço”. 
A fisioterapia surge na vida de Jessica Margarido já quase nos últimos anos do secundário. No 11.º ano, ainda não sabia o que queria seguir, embora a área da saúde fosse a de eleição. “Assim que descobri a fisioterapia identifiquei-me de imediato. Foi a neurologia que me conquistou, talvez pelo AVC do meu avó, mas hoje a minha paixão é a Reeducação Postural Global”, esclarece.
É no mar que Jessica encontra “alimento” para carregar as baterias, estar perto dos seus e da terra que a viu crescer. Todos nós temos um espaço de procura interior, que nos dá a paz e alento para continuar a jornada da vida. Apenas temos de estar atentos e saber escutar.
Luci Pais
 
 

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