sexta-feira, 27 de maio de 2016

“A physioclem tem sido a escola da vida e uma casa onde posso cuidar de todos aqueles que nos procuram”





Sentamo-nos em cima da cama. Eu e a Vânia Clemente. O lugar mais tranquilo da casa. Pelo menos, era essa a intenção. Lá fora, havia gritos, correria, felicidade… Uma casa cheia de vida. Juntavam-se aos quatro da Vânia, os meus dois filhos. O Marco Clemente pedia silêncio, mas como se pode pedir a seis crianças que fiquem sossegadas?! Prepare-se porque tão depressa estará no presente, como no passado. O entusiasmo e determinação de Vânia reflete-se tanto na ação, como nas palavras, mas isso toda a gente já sabe!
São Sebastião da Pedreira. Lisboa. 1978
Nascia Vânia Maria da Silva Caeiro. Única filha de um casal que se separou quando a menina tinha 9 anos. Ficou com a mãe, Anabela Silva. O pai, José Caeiro, viu-o, depois dessa data, pouco mais de quatro ou cinco vezes, embora vivessem na mesma terra. “Nunca me procurou, nem houve relação. Ele achava que era um dever meu. A verdade é que nem os netos conhece”, testemunha.
Com a idade da filha mais velha, 12 anos, Vânia já tratava de toda a casa, só não aprendeu a cozinhar. Talvez, por isso, tenha a mania das limpezas e arrumações. A mãe trabalhava sempre até tarde. Com a comida, embora nunca faltasse, desenrascava-se com o que havia: sopas ou papas. A avó materna tinha o cuidado de levar uma panela de sopa. Punha a música alta e dançava, enquanto esfregava, passava a ferro e punha tudo no lugar.
Alcobaça. Maio de 2016. Família
“Gostava de cuidar da casa. Ficava satisfeita em ver tudo arrumado, ainda hoje é assim. É chato, fico cansada, mas gosto de tratar de toda a logística. A Vânia fisioterapeuta faz o seu trabalho, depois há o marido, os filhos e a escola”, refere. Há mil e um assuntos que passam na sua mente. Sente necessidade de agir. Tem de estar presente e controlar, “para que tudo não vire um caos”. Confessa que podia deixar as filhas estudar sozinhas, mas receia que não acompanhem e depois já não consiga tomar as rédeas. 
Planifica os dias. As férias de verão dos quatro filhos já estão programadas. A festa de anos de uma das filhas, em outubro, já está idealizada. “Sei que me meto em tudo, mas não consigo estar em casa e saber que há uma Associação que precisa de pais para fazer o seu trabalho. Depois tenho de dar atenção a cada um leite deles, se ouço primeiro um do que o outro já há um grande problema. Mas tudo se consegue, às vezes com grande stress pelo meio”.
Quatro filhos. Maria João, Diana, Rita e Manuel. “Só este período foram 30 testes. Para o ano, serão 42. É de fugir… Há recados: mãe isto, mãe aquilo. Talvez seja mãe galinha, porque não tive… Por vezes, devo ser exagerada, mas preciso de sentir que estou presente”.
São Sebastião da Pedreira. Lisboa. Infância e juventude
Se com o pai teve pouco contacto, com a família paterna ainda hoje tem um excelente relacionamento. “A minha avó, tios e primos quiseram sempre saber como eu estava, como ainda hoje acontece. Já o meu núcleo mais próximo, pai e mãe, nunca foi forte. Enquanto estiveram juntos, apesar de tudo o que se passava e do que vi, sinto que foram felizes à maneira deles”. 
Nos colégios que frequentou era a primeira a entrar e a última a sair. Os pais estavam sempre a trabalhar. “Podia não haver muito dinheiro, mas para a menina havia a última sapatilha da moda e roupa. Se houve dificuldade, nem dei por ela…”, relembra. Para ocupar o tempo, andava em todas as atividades que a escola proporcionava, desde o ballet ao desporto. “Como era muito comunicativa e prestativa participava em todas as festas de aniversário e da escola. Gostava muito de cuidar e de estar em tudo”, afirma. 
Olhando para o passado, Vânia comenta: “Não tive uma infância triste. Só não tive o núcleo familiar que qualquer criança sonha, mas tive os amigos”.
Lá fora corre-se de umas divisões para as outras. Há gargalhadas que nos contagiam. 
Alcoitão. 1996. Universidade
Em Alcoitão, a primeira pessoa que conheceu foi o Marco Clemente. Vânia procurava o seu nome entre a lista dos alunos que tinham entrado. Não constava. Estava na marca de água. Depois de uma troca de palavras, Marco garante-lhe que também ela ía entrar. Assim, aconteceu.
Quando regressa, passados uns dias à Escola Superior de Saúde do Alcoitão, quem vê novamente junta à pauta? Sim, o Marco! Não foi amor à primeira vista, mas para lá caminhou.
O Marco estava a terminar o bacharelato e a Vânia iniciava as suas pisadas na fisioterapia. O namoro começou em dezembro e em fevereiro viviam juntos. 
A vida de Vânia começou a dificultar-se após o despedimento da mãe. Receosa por não conseguir pagar os estudos, a jovem de São Sebastião da Pedreira pensou em abandonar o curso para trabalhar. O jovem de Alcobaça não permite. Juntos arranjam uma solução. “Os pais do Marco estavam na Alemanha e enviavam-lhe dinheiro. Sempre que podia, e porque já tinha experiência, ele dava tratamentos em associações e eu fazia promoção de produtos em superfície comerciais. Foi assim que fomos conseguindo levar a nossa vida”, recorda.
Na sua mala andava sempre um caderno, no qual apontava todo o dinheiro que o Marco emprestava. “Tenho tudo escrito, desde um gelado, a uma peça de roupa ou um bilhete de cinema. Pensava que não fazia sentido, se nos separássemos, que tivesse suportado todas as despesas”.
A verdade é que ainda hoje continuam juntos e o caderno continua a ser apenas uma recordação. “O Marco foi o meu pai, tutor, professor durante o curso. Não sou burra, mas sou preguiçosa para estudar, desde que desse para safar era cinco estrelas. Obrigava-me a estudar e a ler. Ainda hoje me recordo de uma prenda que me ofereceu durante o curso. Tinha chumbado a uma das cadeiras. Chega perto de mim com a inscrição de um exame, que tinha custado 7 contos. Pensei que belas sapatilhas ou calças tinha comprado…”.
Entre nós, nesse momento, já estava a filha mais velha, a Maria João, que se ri à gargalhada enquanto a mãe conta esta parte da história. Quem conhece a Vânia sabe as expressões que faz enquanto fala… Um momento delicioso.
A intenção de Marco Clemente, quando a Vânia terminasse o curso, era regressar a Alcobaça. A jovem de São Sebastião da Pedreira pede-lhe para ficar mais um tempo, porque tinha conseguido trabalho no último estágio por onde tinha passado. 
Acabam, assim, por prolongar a estadia pela Capital. Compram um apartamento em Sassoeiros, em Oeiras, e por ali fazem vida durante alguns, mas poucos, anos.
Em tom de brincadeira, Vânia dizia frequentemente ao Marco que só ficava com ele se tivessem quatro filhos. Também isso aconteceu, mas já lá vamos.
Abre uma vaga no Hospital de Alcobaça. O Marco concorreu e entrou. 
Alcobaça. 2000. Trabalho e família
O primeiro ano não foi nada fácil. Ambiente diferente. Faltava a confusão a que estava habituada. “Lá tinha tudo à mão, aqui nem um shopping havia, mas acabei por me adaptar e hoje não troco esta cidade por nada. Sou feliz aqui”.
Em 2000, no Santuário da Nazaré, casaram-se. O sogro, Carlos Clemente, estava na Alemanha para ser operado, mas a “norinha” arranjou forma de o ter presente. O telemóvel esteve sempre ligado, para lhe relatar todos os passos.
Ainda mantêm a casa em Sassoeiros durante algum tempo. Acabam por vender, porque a despesa começa a ser muita. “Os ordenados relativamente a Lisboa baixaram muito e começou a tornar-se insuportável manter as duas. Com o dinheiro que fizemos montámos a clínica e fizemos umas boas férias. A partir desse momento, começa a nossa vida em Alcobaça”.
“A physioclem tem sido a escola da vida e uma casa onde posso cuidar de todos aqueles que nos procuram. Gosto de estar perto das pessoas mais idosas e das crianças. Quando faço os domicílios levo sempre muito de mim e partilho as minhas histórias. Somos uma lufada de ar fresco na vida daquelas pessoas que por alguma razão já não podem sair de casa. Como gosto de comunicar, cuidar e tratar torna-se uma experiência enriquecedora e sem a qual já não sei passar”, garante.
Alcobaça. 2003 até hoje. Família 
Vânia sempre quis ter os quatro filhos seguidos. Nasce a Maria João em 2004, a Diana em 2005, a Rita em 2006 e… Espera! “O meu sogro diz: Alto. Isto não pode continuar assim”. As meninas cresciam na clínica, na maioria das vezes era o senhor Carlos que as transportava no marsúpio. 
“Um dia cheguei à clínica, vinda de um domicílio e estava o meu sogro a preparar água com leite para dar à Diana porque já não havia quem a calasse com tanta fome. Confesso que não era nada fácil. Cheguei a apresentar trabalhos, quando estava a tirar a licenciatura, grávida e a dar a mama”. Foi na physioclem que as minha filhas estiveram até ir para a pré-escola, nos últimos tempo já com a ajuda da Quina, que veio para tratar das roupas e limpeza da clínica, mas acabou por ficar a tomar conta dos meninos.
O Manuel saiu fora das contas do calendário inicial e nasce passados quatro anos da data prevista, em 2010. Desta vez, um menino! 
Entretanto entra a Rita no quarto, para mostrar uma libelinha que tinha feito com legos. A atenção da Vânia desvia-se para a filha que elogia a construção, enquanto lhe passa a mão pelo cabelo. Também o Marco precisa de auxílio para fazer o tratamento ao Manuel.
Nesse momento, Vânia Clemente começa a descrever os filhos e o marido:
Maria João - “É inteligente e estudiosa como o pai. De mim herdou a organização e o método. Tem de estar tudo nos devidos lugares. Vejo-a a trabalhar na área da saúde, mas não no sentido de cuidar, porque não gostar de tocar”.
Diana - “Tem o corpo igualzinho ao meu. É uma menina que anda sempre com a cabeça na lua, no futuro. Certamente será uma cientista ou criativa”.
Rita - “A Rita é um diamante por lapidar. Diz sempre o que lhe vai na alma. É explosiva. Poderá seguir a profissão dos pais, porque gosta de cuidar, de tomar conta. Tal como eu, não se importa de tocar”.
Manuel - “É o Marco chapado. Meloso. Fica muito triste quando não damos atenção. Se eu e o pai estamos a dar um beijo, mete-se no meio. Vejo-o a trabalhar no meio da natureza e dos animais. Diz que quer ser paleontólogo”.
Marco - “É um ser humano maravilhoso. Muito calmo, muito tranquilo e dócil. Gosta de festas, mas não gosta de estar no meio da confusão. Prefere estar no seu canto a conversar. Tudo o que temos conquistado partiu da sua excelente maneira de ver e conduzir a vida”.
Quando terminámos a conversa, já a Rita dormia num cantinho da cama e o Manuel coçava os olhinhos. Chegou o momento de dormir. Na sala, os mais velhos jogavam batalha naval. A casa estava mais calma, tranquila. O Manuel arrastava a mãe pelo braço, puxando até ao quarto. 
Ao longo da conversa com Vânia Clemente, a palavra cuidar esteve sempre presente. Cuidar de tudo. Talvez, sinta necessidade de cuidar, para colmatar algumas ausências da sua vida. Quando cuidamos com amor, só podemos receber mais amor…

Luci Pais

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