sexta-feira, 27 de maio de 2016

“A physioclem tem sido a escola da vida e uma casa onde posso cuidar de todos aqueles que nos procuram”





Sentamo-nos em cima da cama. Eu e a Vânia Clemente. O lugar mais tranquilo da casa. Pelo menos, era essa a intenção. Lá fora, havia gritos, correria, felicidade… Uma casa cheia de vida. Juntavam-se aos quatro da Vânia, os meus dois filhos. O Marco Clemente pedia silêncio, mas como se pode pedir a seis crianças que fiquem sossegadas?! Prepare-se porque tão depressa estará no presente, como no passado. O entusiasmo e determinação de Vânia reflete-se tanto na ação, como nas palavras, mas isso toda a gente já sabe!
São Sebastião da Pedreira. Lisboa. 1978
Nascia Vânia Maria da Silva Caeiro. Única filha de um casal que se separou quando a menina tinha 9 anos. Ficou com a mãe, Anabela Silva. O pai, José Caeiro, viu-o, depois dessa data, pouco mais de quatro ou cinco vezes, embora vivessem na mesma terra. “Nunca me procurou, nem houve relação. Ele achava que era um dever meu. A verdade é que nem os netos conhece”, testemunha.
Com a idade da filha mais velha, 12 anos, Vânia já tratava de toda a casa, só não aprendeu a cozinhar. Talvez, por isso, tenha a mania das limpezas e arrumações. A mãe trabalhava sempre até tarde. Com a comida, embora nunca faltasse, desenrascava-se com o que havia: sopas ou papas. A avó materna tinha o cuidado de levar uma panela de sopa. Punha a música alta e dançava, enquanto esfregava, passava a ferro e punha tudo no lugar.
Alcobaça. Maio de 2016. Família
“Gostava de cuidar da casa. Ficava satisfeita em ver tudo arrumado, ainda hoje é assim. É chato, fico cansada, mas gosto de tratar de toda a logística. A Vânia fisioterapeuta faz o seu trabalho, depois há o marido, os filhos e a escola”, refere. Há mil e um assuntos que passam na sua mente. Sente necessidade de agir. Tem de estar presente e controlar, “para que tudo não vire um caos”. Confessa que podia deixar as filhas estudar sozinhas, mas receia que não acompanhem e depois já não consiga tomar as rédeas. 
Planifica os dias. As férias de verão dos quatro filhos já estão programadas. A festa de anos de uma das filhas, em outubro, já está idealizada. “Sei que me meto em tudo, mas não consigo estar em casa e saber que há uma Associação que precisa de pais para fazer o seu trabalho. Depois tenho de dar atenção a cada um leite deles, se ouço primeiro um do que o outro já há um grande problema. Mas tudo se consegue, às vezes com grande stress pelo meio”.
Quatro filhos. Maria João, Diana, Rita e Manuel. “Só este período foram 30 testes. Para o ano, serão 42. É de fugir… Há recados: mãe isto, mãe aquilo. Talvez seja mãe galinha, porque não tive… Por vezes, devo ser exagerada, mas preciso de sentir que estou presente”.
São Sebastião da Pedreira. Lisboa. Infância e juventude
Se com o pai teve pouco contacto, com a família paterna ainda hoje tem um excelente relacionamento. “A minha avó, tios e primos quiseram sempre saber como eu estava, como ainda hoje acontece. Já o meu núcleo mais próximo, pai e mãe, nunca foi forte. Enquanto estiveram juntos, apesar de tudo o que se passava e do que vi, sinto que foram felizes à maneira deles”. 
Nos colégios que frequentou era a primeira a entrar e a última a sair. Os pais estavam sempre a trabalhar. “Podia não haver muito dinheiro, mas para a menina havia a última sapatilha da moda e roupa. Se houve dificuldade, nem dei por ela…”, relembra. Para ocupar o tempo, andava em todas as atividades que a escola proporcionava, desde o ballet ao desporto. “Como era muito comunicativa e prestativa participava em todas as festas de aniversário e da escola. Gostava muito de cuidar e de estar em tudo”, afirma. 
Olhando para o passado, Vânia comenta: “Não tive uma infância triste. Só não tive o núcleo familiar que qualquer criança sonha, mas tive os amigos”.
Lá fora corre-se de umas divisões para as outras. Há gargalhadas que nos contagiam. 
Alcoitão. 1996. Universidade
Em Alcoitão, a primeira pessoa que conheceu foi o Marco Clemente. Vânia procurava o seu nome entre a lista dos alunos que tinham entrado. Não constava. Estava na marca de água. Depois de uma troca de palavras, Marco garante-lhe que também ela ía entrar. Assim, aconteceu.
Quando regressa, passados uns dias à Escola Superior de Saúde do Alcoitão, quem vê novamente junta à pauta? Sim, o Marco! Não foi amor à primeira vista, mas para lá caminhou.
O Marco estava a terminar o bacharelato e a Vânia iniciava as suas pisadas na fisioterapia. O namoro começou em dezembro e em fevereiro viviam juntos. 
A vida de Vânia começou a dificultar-se após o despedimento da mãe. Receosa por não conseguir pagar os estudos, a jovem de São Sebastião da Pedreira pensou em abandonar o curso para trabalhar. O jovem de Alcobaça não permite. Juntos arranjam uma solução. “Os pais do Marco estavam na Alemanha e enviavam-lhe dinheiro. Sempre que podia, e porque já tinha experiência, ele dava tratamentos em associações e eu fazia promoção de produtos em superfície comerciais. Foi assim que fomos conseguindo levar a nossa vida”, recorda.
Na sua mala andava sempre um caderno, no qual apontava todo o dinheiro que o Marco emprestava. “Tenho tudo escrito, desde um gelado, a uma peça de roupa ou um bilhete de cinema. Pensava que não fazia sentido, se nos separássemos, que tivesse suportado todas as despesas”.
A verdade é que ainda hoje continuam juntos e o caderno continua a ser apenas uma recordação. “O Marco foi o meu pai, tutor, professor durante o curso. Não sou burra, mas sou preguiçosa para estudar, desde que desse para safar era cinco estrelas. Obrigava-me a estudar e a ler. Ainda hoje me recordo de uma prenda que me ofereceu durante o curso. Tinha chumbado a uma das cadeiras. Chega perto de mim com a inscrição de um exame, que tinha custado 7 contos. Pensei que belas sapatilhas ou calças tinha comprado…”.
Entre nós, nesse momento, já estava a filha mais velha, a Maria João, que se ri à gargalhada enquanto a mãe conta esta parte da história. Quem conhece a Vânia sabe as expressões que faz enquanto fala… Um momento delicioso.
A intenção de Marco Clemente, quando a Vânia terminasse o curso, era regressar a Alcobaça. A jovem de São Sebastião da Pedreira pede-lhe para ficar mais um tempo, porque tinha conseguido trabalho no último estágio por onde tinha passado. 
Acabam, assim, por prolongar a estadia pela Capital. Compram um apartamento em Sassoeiros, em Oeiras, e por ali fazem vida durante alguns, mas poucos, anos.
Em tom de brincadeira, Vânia dizia frequentemente ao Marco que só ficava com ele se tivessem quatro filhos. Também isso aconteceu, mas já lá vamos.
Abre uma vaga no Hospital de Alcobaça. O Marco concorreu e entrou. 
Alcobaça. 2000. Trabalho e família
O primeiro ano não foi nada fácil. Ambiente diferente. Faltava a confusão a que estava habituada. “Lá tinha tudo à mão, aqui nem um shopping havia, mas acabei por me adaptar e hoje não troco esta cidade por nada. Sou feliz aqui”.
Em 2000, no Santuário da Nazaré, casaram-se. O sogro, Carlos Clemente, estava na Alemanha para ser operado, mas a “norinha” arranjou forma de o ter presente. O telemóvel esteve sempre ligado, para lhe relatar todos os passos.
Ainda mantêm a casa em Sassoeiros durante algum tempo. Acabam por vender, porque a despesa começa a ser muita. “Os ordenados relativamente a Lisboa baixaram muito e começou a tornar-se insuportável manter as duas. Com o dinheiro que fizemos montámos a clínica e fizemos umas boas férias. A partir desse momento, começa a nossa vida em Alcobaça”.
“A physioclem tem sido a escola da vida e uma casa onde posso cuidar de todos aqueles que nos procuram. Gosto de estar perto das pessoas mais idosas e das crianças. Quando faço os domicílios levo sempre muito de mim e partilho as minhas histórias. Somos uma lufada de ar fresco na vida daquelas pessoas que por alguma razão já não podem sair de casa. Como gosto de comunicar, cuidar e tratar torna-se uma experiência enriquecedora e sem a qual já não sei passar”, garante.
Alcobaça. 2003 até hoje. Família 
Vânia sempre quis ter os quatro filhos seguidos. Nasce a Maria João em 2004, a Diana em 2005, a Rita em 2006 e… Espera! “O meu sogro diz: Alto. Isto não pode continuar assim”. As meninas cresciam na clínica, na maioria das vezes era o senhor Carlos que as transportava no marsúpio. 
“Um dia cheguei à clínica, vinda de um domicílio e estava o meu sogro a preparar água com leite para dar à Diana porque já não havia quem a calasse com tanta fome. Confesso que não era nada fácil. Cheguei a apresentar trabalhos, quando estava a tirar a licenciatura, grávida e a dar a mama”. Foi na physioclem que as minha filhas estiveram até ir para a pré-escola, nos últimos tempo já com a ajuda da Quina, que veio para tratar das roupas e limpeza da clínica, mas acabou por ficar a tomar conta dos meninos.
O Manuel saiu fora das contas do calendário inicial e nasce passados quatro anos da data prevista, em 2010. Desta vez, um menino! 
Entretanto entra a Rita no quarto, para mostrar uma libelinha que tinha feito com legos. A atenção da Vânia desvia-se para a filha que elogia a construção, enquanto lhe passa a mão pelo cabelo. Também o Marco precisa de auxílio para fazer o tratamento ao Manuel.
Nesse momento, Vânia Clemente começa a descrever os filhos e o marido:
Maria João - “É inteligente e estudiosa como o pai. De mim herdou a organização e o método. Tem de estar tudo nos devidos lugares. Vejo-a a trabalhar na área da saúde, mas não no sentido de cuidar, porque não gostar de tocar”.
Diana - “Tem o corpo igualzinho ao meu. É uma menina que anda sempre com a cabeça na lua, no futuro. Certamente será uma cientista ou criativa”.
Rita - “A Rita é um diamante por lapidar. Diz sempre o que lhe vai na alma. É explosiva. Poderá seguir a profissão dos pais, porque gosta de cuidar, de tomar conta. Tal como eu, não se importa de tocar”.
Manuel - “É o Marco chapado. Meloso. Fica muito triste quando não damos atenção. Se eu e o pai estamos a dar um beijo, mete-se no meio. Vejo-o a trabalhar no meio da natureza e dos animais. Diz que quer ser paleontólogo”.
Marco - “É um ser humano maravilhoso. Muito calmo, muito tranquilo e dócil. Gosta de festas, mas não gosta de estar no meio da confusão. Prefere estar no seu canto a conversar. Tudo o que temos conquistado partiu da sua excelente maneira de ver e conduzir a vida”.
Quando terminámos a conversa, já a Rita dormia num cantinho da cama e o Manuel coçava os olhinhos. Chegou o momento de dormir. Na sala, os mais velhos jogavam batalha naval. A casa estava mais calma, tranquila. O Manuel arrastava a mãe pelo braço, puxando até ao quarto. 
Ao longo da conversa com Vânia Clemente, a palavra cuidar esteve sempre presente. Cuidar de tudo. Talvez, sinta necessidade de cuidar, para colmatar algumas ausências da sua vida. Quando cuidamos com amor, só podemos receber mais amor…

Luci Pais

sexta-feira, 20 de maio de 2016

“O trabalho de prevenção da physioclem foi fundamental para chegarmos onde chegámos”







Em cada rosto de A Nossa Gente há uma história. Desta vez, o protagonista representa mais 13 homens e outros tantos sonhos e histórias. Júlio Reis chegou às Caldas da Rainha com apenas 22 anos, para dar aulas de Educação Física. Natural de Espinho, cidade onde jogava voleibol.


Ainda mal os pés tinham pisado as instalações do Sporting Clube das Caldas, depois de propor a modalidade de voleibol à direção do clube, já Júlio Reis, de 48 anos, afirmava: “Um dia vou trazer títulos para esta casa”. Há recortes de jornais a sustentar esta afirmação. O que para muitos foi considerado uma utopia, nomeadamente para o presidente na ocasião, Mário Tavares, para o treinador e professor Júlio Reis era uma certeza. Os resultados começaram a somar-se, fruto de trabalho árduo e persistente. Poderíamos enumerar várias épocas, mas a que terminou, recentemente, tornou-se a maior conquista de todos os tempos. “Vivemos um ano incrível. Foi a melhor época de sempre da equipa sénior masculina de voleibol do Sporting Clube das Caldas”, testemunha o professor na Escola EBI de Santo Onofre. Ficaram em 2º lugar, na 1ª Divisão Nacional, depois de terem ido também à Final Four da Taça de Portugal.

Entregue nas mãos da physioclem, o Sporting das Caldas encontra razões para acreditar que os bons resultados chegam. “Quando temos o apoio de profissionais, como os fisioterapeutas da physioclem, obriga-nos a ser ainda mais responsáveis e profissionais. O trabalho de prevenção da physioclem foi fundamental para chegarmos onde chegámos. Além disso, estão sempre disponíveis a qualquer hora do dia ou da noite”, afirma Júlio Reis, lembrando as mais valia que a physioclem trouxe para o seio da equipa. Desde o primeiro momento, adianta o treinador, que os “jogadores desenvolveram uma grande empatia com o Rodrigo e com o Paulo”. Graça a este apoio, nunca houve um atleta parado durante toda a época. “Nas situações mais difíceis o Marco está sempre lá disposto a ajudar. Felizmente, não tem existido impossíveis”.
A conquista dá-se dentro e fora de campo. “Foi fácil trazer, em 1994, atletas para a prática de voleibol. O facto de ser professor de Educação Física facilitou o processo”. A formação foi crescendo e o número de atletas continuou a aumentar. Hoje, a equipa sénior não consegue dar resposta a todos. “A exigência é muito grande desde que entrámos na 1ª Divisão”, explica. Inicialmente, face às verbas reduzidas, a equipa fazia-se apenas com a prata da casa. Hoje, já há atletas de outros pontos do país.
A conquista também se dá fora das linhas do campo. A população começou a encher o pavilhão. A responsabilidade aumentou. Quando se aperceberam, tinham casa cheia para assistir aos jogos. Os jogos fora são sempre motivo para grandes convívios.
Durante alguns anos, a equipa de voleibol do Sporting Clube das Caldas foi a única equipa na 1ª Divisão no distrito de Leiria. Razão que a levou a ser homenageada pelo Governo Civil de então.
São 24 os anos que passaram desde que Júlio Reis chegou à cidade das Caldas da Rainha. Casou-se e tem dois filhos. Ambos jogam voleibol. O filho na equipa sénior e a filha na equipa feminina da Lusófona.
O caminho fez-se mesmo caminhando. O clube começou com uma equipa de juniores na 3ª Divisão. Em seniores passaram pela 3ª, 2ª e há cerca de seis anos consecutivos que estão na 1ª, mas já cá tinha estado. Das 12 equipas, apenas o Sporting das Caldas e o Benfica se encontram mais a sul. As restantes encontram-se na zona norte. Há ainda os açorianos Fonte do Bastardo.
Os treinos decorrem de segunda a sexta-feira, durante cerca de 2:30 horas, não esquecendo mais 1:30 de ginásio, três vezes por semana. Somam-se ainda os jogos ao fim de semana. Resultado de fim de época: 191 treinos de pavilhão; 86 idas ao ginásio; 36 jogos. Se pensa que o voleibol agora entrou em fase de descanso, está enganado. Agora, começam os jogos de voleibol de praia. “Mas agora é tudo responsabilidades deles. Vou dedicar-me à família”. A verdade é que os filhos vão participar no campeonato europeu… Será que vais resistir e conseguir?!
“Não é difícil ser treinador, o difícil é gerir mentalidades de pessoas tão diferentes. Sou uma pessoa calma e bom ouvinte. Isso ajuda, sem dúvida, no trabalho que tenho de desenvolver diariamente”, confessa Júlio Reis. Aos seus 13 atletas exige responsabilidade e aconselha a que tenham uma profissão: “infelizmente, à exceção das grandes equipas, não é possível viver disto. O voleibol deverá ser uma grande paixão, porque a carreira um dia termina e o trabalho tem de continuar”.
Júlio Reis sabe que para conduzir uma equipa é preciso saber ouvir. Estar presente. Sentir. Uma atitude essencial nas relações dentro e fora de campo, porque o caminho faz-se caminhando…


Luci Pais


quinta-feira, 12 de maio de 2016

"A physioclem deu-me qualidade de vida e uma nova família"




 

 


Sentamo-nos numa cadeira amarela. Pousamos os livros, cadernos e lápis numa mesa, também ela amarela. De austero aquela sala de aula nada tinha. Os pensamentos recuaram várias décadas e quando demos por nós estávamos a ver, pela primeira vez, o mar. Imensidão. Medo. Desde esse tempo, e já lá vão mais de 55 anos, Maria da Conceição Marques, a mulher bonita, por dentro e por fora, desta história, nunca mais deixou de o ver. A imensidão do mar é uma bênção na sua vida.
Nasceu na pequena freguesia de Alferrarede, concelho de Abrantes, há 65 anos. O pai, Fernando Pereira, trabalhava na CUF (Companhia União Fabril), na manutenção. “Uma empresa com uma missão social intensa. Tínhamos escola, teatro, desporto e festas em família. Mais de metade das pessoas da minha terra trabalhavam ali”, relembra. A Cuf estava presente, através de polos, em diferentes pontos do país.
Com Conceição Marques é impossível não viajar no tempo. Descreve os momentos com delicadeza e sensibilidade. Quando damos por nós, estamos a viver todos os pormenores, com o mesmo entusiasmo com que partilha a sua história. A sua vida. Os sentidos ficam de tal forma em alerta que sentimos que somos parceiros de viagem, de sentimentos.
Regressando aos bancos da escola. Foi também ali que Conceição Marques, conhecida  e tratada, carinhosamente, por São, comeu também pela primeira vez fiambre: “Às 11 horas, um carrinho vinha junto das salas de aula carregado de leite com chocolate ou simples e pão quentinho. Ainda hoje me lembro daquele cheirinho que se espalhava pelos corredores”. 
O desporto foi sempre uma das paixões da sua vida e vai acompanhar-nos ao longo destas linhas. Na CUF havia três equipas - hóquei, futebol e basquetebol -, algumas das quais integravam a primeira divisão. Praticou basquetebol, a sua altura também justifica esta opção, durante alguns anos.
A Santa Apolónia, em Lisboa, era o ponto de chegada, para uns dias de férias. Dos comboios saltavam crianças felizes, cada grupo “vestia” uma cor, por forma a identificar a escola do país de onde vinham. Conceição “vestiu-se”, naquele preciso momento, com a sua saia de peitilho cinzenta clara e com uma camisola às riscas vermelhas e brancas. O seu olhar transformou-se. Tornou-se numa menina. Entusiasmada e sorridente, no meio da Santa Apolónia. À porta, vários autocarros da CUF aguardavam a chegada das crianças. Dali seguiam para a Praia das Maçãs, em Colares (Sintra).
Já na colónia de férias, as camas seguiam-se umas às outras. Antes do início das atividades, no dia em que chegavam, tinham de passar uma espécie de desinfeção, não fossem os piolhos atrapalhar as tão desejadas férias. “Havia teatro, missa e uma grande escadaria que nos levava até à praia”, testemunha. “E foi numa dessas viagens que vi o mar pela primeira vez. Fiquei ali, sem dizer nada, envolvida numa enorme mistura de sentimentos”.
De Abrantes, e por exigências do trabalho do pai, aos 10 anos muda-se para o Barreiro, onde permanece durante cinco anos. Os pais separam-se. A mãe, Esmeralda Gomes, vem para Alcobaça. Conceição Marques fica com o pai no Barreiro, até decidirem que deveria vir para perto da mãe. “Nunca foi um casamento fácil. Tenho mais três irmãos. Duas nasceram deficientes. A Julinha vive na Misericórdia de Alcobaça, junto com o seu boneco. É muito apaparicada. A minha mãe continua toda gaiteira aos 88 anos”, diz, enquanto esboça um meigo sorriso.
Andou dois anos na Escola Secundária D. Inês de Castro. Ainda jogou dois anos basquetebol pelo União de Leiria, mas a distância não facilitou a continuação. Além disso, tinha de ajudar a mãe que era costureira. “Fiz muitas bainhas”. Recorda-se bem do dia em que em conjunto com Basílio Martins, Rui Coelho e Diamantino Faustino começaram a juntar algumas crianças e jovens na prática de atletismo. “Tinha 18 anos. Não só dava treino, como treinava, onde hoje são os campos de ténis de Alcobaça. Um dia o professor Mário Costa arranjou duas tabelas de basquetebol. Arranjei uma equipa e foram momentos maravilhosos. Gostei de brincar até muito tarde”.
Num verão, sem que nada fizesse adivinhar, conhece Carlos Marques. A noite estava quente e em conjunto com uma amiga, e respetivas mãe, decidiu dar uma voltinha pela cidade. Havia um bailarico de verão, que integrava a última etapa da volta a Portugal em bicicleta. Vê dois rapazes a aproximarem-se. Avisa a amiga que não quer dançar, mas se “insistirem muito ficava com o mais alto, porque o outro era muito baixinho”. Acabou por dançar com o mais alto. Já vivia em Alcobaça há alguns anos e nunca o tinha visto.
Carlos Marques estava de férias em Alcobaça. Tinha cumprido o serviço militar e agora estava na guerra, em África. “A verdade é que aparecia em todo o lado. Foi falar com a minha mãe porque queria namorar comigo. Conheci os pais dele. Quando dei por mim estava a namorar com um homem que tinha visto apenas alguns dias”.
Durante um ano, trocaram cartas de amor. “Todos os dias me escrevia. Envia-lhe o jornal da Bola todas as semanas. Se eu escrevesse menos, ficava triste e dizia-me na carta seguinte”. Quando chegou, fui com os pais de Carlos Marques esperá-lo: “fui todo o caminho a pensar e se não gosto dele?” Assim que o viu sair do avião não teve dúvidas…
Casa em fevereiro de 1974. Vivia em Lisboa, porque o marido estava  a terminar o curso, ao mesmo tempo que trabalhava. Em novembro, desse mesmo ano, e já com as transformações do 25 de Abril, engravida. Disse ao marido que queria regressar a Alcobaça. A terra onde queria criar os filhos. Já havia uma empresa em terras de Cister, que juntava o marido, o sogro e o cunhado. Conceição também para ali foi trabalhar. Trabalhava-se a um ritmo alucinante. A mãe ajudou-a a tomar conta das filhas até entrarem no Jardim-Escola João de Deus.
As filhas herdaram o gosto pelo desporto. A mais velha, a Rita, chegou a ser internacional de andebol. Durante vários anos, o Cister Sport de Alcobaça foi a sua “casa”. Chegou a ser presidente da Direção. “Fizemos de tudo um pouco para juntar dinheiro para darmos melhores condições, mas no dia em que as minhas filhas sairam decidi que também outros pais deviam continuar o trabalho. A presidência está muito bem entregue ao Lorvão”.
Tem quatro netos. As filhas, Rita e Joana, trabalham na empresa dos pais. Adora crianças e confessa que nada mais a comove que o choro de uma criança. Nem sempre foi assim, mas a maturidade trouxe-lhe novas descobertas na sua vida.
As descobertas, nomeadamente de si, levaram Conceição Marques a percorrer os caminhos de Santiago. Já o fez em grupo, mais do que uma vez, e sozinha. Há dois anos, e depois de planear todo o caminho, entrou numa das viagens mais importantes da sua vida. Um período que se lhe exigia de reflexão. “A vida não é só correr de um lado para o outro. É preciso parar e pensar”. Nada melhor do que os caminhos de Santiago para o fazer. “Sou católica, mas não sou praticante. Acredito que tanto se ora no interior de uma igreja, como à beira do rio. O Deus, de todas as religiões, é o mesmo. O meu não é melhor do que o do outro. É, grandiosamente, Deus”, afirma.
O apoio logístico recebeu-o em cada paragem. Pelo caminho, encontrou pessoas do mundo inteiro com quem partilhou algumas histórias. Consigo levava a concha, o cajado e o boletim. “Confesso que não há grandes pensamentos. A natureza é tão forte que só queremos absorver os sons e contemplar as belas paisagens”. A chegada a Santiago é uma grande festa. Revêm-se rostos e assiste-se à missa do peregrino. Um caminho que quer reviver novamente sozinha. 
Sempre que pode viaja até ao interior do país. Fascina-a conhecer pessoas e as suas histórias. Há uns tempos conheceu duas irmãs idosas, em Vinhais (Trás dos Montes) que vendiam enchidos de fumeiro numa feira. “Percebi que são felizes com o que têm e não procuram muito mais. Com o passar dos anos, a minha perspetiva de vida mudou”. Maria da Graça é outra senhora que conheceu recentemente, também numa terra do interior. Acabou por criar o hábito de a visitar e leva-lhe sempre alguma coisa. “Agradecem muito. Têm uma vida muito organizada. O almoço tinha de ser às 12 horas, porque a seguir tinha as vacas para pôr a pastar”. Histórias que vão tornando Conceição Marques consciente de outras formas de estar na vida.
Na sua casa, tem uma horta que, este ano, vai aumentar. Está a construir um galinheiro. Para que as possa apreciar e sentir outra forma de estar na vida, já mandou fazer um banco em madeira. “Adoro fazer jardinagem. É dos momentos mais maravilhosos que passo”. 
A physioclem surge num momento difícil da sua vida. Já foi operada, duas vezes, à coluna e a um pé. “Tenho um esqueleto muito fraco. Foi uma lesão num cotovelo que me trouxe a aqui, há 14 anos. Assisti ao nascimento desta casa, que tem um serviço exemplar e um sentido de humanização digno de registo. O Marco é das pessoas mais extraordinárias que conheço. Acabámos por nos tornar confidentes. A physioclem deu-me qualidade de vida e uma nova família”, testemunha.  
O caminho faz-se olhando também para dentro. Todos os caminhos que percorremos, em pensamento ou fisicamente, ajudam a desenhar o mundo que precisamos. A maioria das vezes, essa descoberta chega. Só temos de estar predisposto a fazer a viagem… 
Luci Pais

quinta-feira, 5 de maio de 2016

“Sinto-me orgulhoso por fazer parte da equipa physioclem, que está sempre disponível para fazer mais e melhor”






Há uma escada. Os olhos vão-se perdendo na beleza do palacete. Quando se abre a porta da physioclem, em Alcobaça, há um sorriso, uma voz, que nos espera sempre com o mesmo entusiasmo. É pai, avô, sogrinho, colaborador… Sinceramente, é muito mais. É o senhor Carlos. O senhor Carlos Clemente. 
Abraça o projeto do filho, Marco Clemente, como se fosse seu, desde o dia em que a physioclem nasceu. Passados 14 anos, o senhor Carlos continua a trabalhar com a mesma vitalidade e empenho.
O dia começa bem cedo. No dia anterior, prepara a agenda, que não se prende apenas com o atendimento na clínica. Há as netas, três, e o neto. “Normalmente, tenho 20 alarmes no meu telemóvel. Vou por uma a um lado, depois vou buscar outra… Isto deixa-me muito feliz”, testemunha.  
Não é em Alcobaça que começa a história de Carlos Clemente, de 63 anos. Cresceu em Leiria, mas nasceu em Valado dos Frades, na casa de uma tia. “O meu pai era chofer de autocarros. A minha mãe era doméstica e para não estar sozinha em Leiria, durante o parto, o meu pai pediu-lhe que ficasse uns dias em casa da minha tia Emília”. Passadas algumas semanas, regressa à capital de distrito.
O que muitos não sabem é que o ar malandro e traquina de Carlos Clemente já vem desde pequeno. “Sempre gostei de pregar partidas. O meu nome era “frasquinho de veneno”, porque estava sempre pronto para malandrices. O meu neto Manel sai a mim. Nós é que não vamos permitindo”, refere, entre sorrisos.
Além de malandro, era guloso. Como os pais não tinham muitas posses financeiras, e gostava de guloseimas, aproveita para vender o que podia a uma sucata que havia perto de casa: “apanhava papel, cobre, latas e, até, ossos de cavalos. Com o dinheirito que recebia ía comprar suspiros, sandes de atum e os chapéus de chocolate Regina, que me custavam 25 tostões”.

Interrompendo a história.
A neta mais velha está na sala ao lado com amigas. Levanta-se e pede silêncio, porque é um local de trabalho e as pessoas precisam de concentrar-se.
Retomando a história. 

A guerra fazia-se sentir em África. O pai, um homem autoritário, mas muito zeloso da família, decidiu, antes que os dois filhos tivessem que se alistar, partir para a Alemanha. Com 13 anos, Carlos Clemente mudava a sua vida. Confessa que se habituou rápido e que facilmente aprendeu a falar alemão, servindo sempre de intérprete aos pais, Gabriel Clemente e Maria Rosa Oliveira. “Quando se é jovem aprende-se tudo. Dei muitos pontapés na gramática, mas sei ler e falar em alemão, escrever é que é complicado”. Com 14 anos, acompanhado pelo pai e irmão, foi trabalhar para uma fábrica de vidro, onde aprendeu a soprar vidro. A unidade fecha e segue para outra na qual se faziam chapas, através de vidro líquido, para barcos e carros.
É na Alemanha que começa, também, a história de amor da sua vida. Os seus sogros, na ocasião amigos da família, tinham cinco filhos. Dois, os mais velhos, partiram com os pais, três ficam em Valado dos Frades, concelho da Nazaré. Com quem? Com a tia de Carlos Clemente, na casa onde tinha nascido.
Rosália Teixeira Clemente, o amor da sua vida, chega um ano depois. Todos os fins de semana as famílias encontravam-se. O amor foi crescendo. Aos 16 anos pede namoro a Rosália, mas a resposta foi negativa. Não desistiu. Três anos depois, chega a resposta pela qual ansiava desde que tinha visto, pela primeira vez, a menina lourinha. Não só começaram a namorar, como passado pouco tempo casaram-se. “Ela é branco, eu sou preto. Não temos nada a ver um com o outro, mas é aí que nos encontramos. É 100% certinha, uma mulher maravilhosa, uma mãe espetacular e uma avó amiga”.

Interrompendo a história. 
No meio da conversa o telefone toca e a porta abre-se várias vezes. O entusiasmo e boa disposição do senhor Carlos é sempre o mesmo. Quem entra na Clinica do Marco, assim conhecida por muitos, responde com sorrisos, e algumas dores. 
Retomando à história.

Três anos depois do enlace matrimonial, nasce o primeiro filho, Marco. “Eu trabalhava na fábrica e a minha mulher era costureira. Vivíamos uma história de amor. Juntámos dinheiro e construímos uma casa em Portugal, em Valado dos Frades. “Desde o primeiro dia do meu casamento que disse à minha mulher que um dia regressaríamos a Portugal”. O Marco entra para a creche e, entretanto, nasce o segundo filho, Jorge. O mais novo nunca se habituou ao infantário. Rosália acaba por se despedir para tomar conta dos filhos. Sempre que podia, a mulher fazia umas limpezas. Chegaram a distribuir publicidade pelas caixas de correio, para de alguma forma colmatar o ordenado que tinha deixado de entrar. 
Quando chegou o momento do filho mais novo entrar para a escola, Carlos Clemente decidiu regressar a Portugal. “Para a minha Rosália, foi uma decisão de morta. Sempre gostou muito de viver na Alemanha”.

Interrompendo a história.
O telefone toca. É a norinha. Há uma neta que precisa de um saco. Pede desculpa, despe a bata e vai resolver o problema.
Retomando à história. Um dia depois.

Foi trabalhar para a Spal. Se na Alemanha levava para casa 300 contos, aqui somava apenas oito contos. Já noutra empresa da região, distribuía papel de computador. Começa a chegar o momento dos filhos seguirem para a universidade e o dinheiro não era o mesmo de outros tempos. Faz as malas, junto com a sua Rosália, e parte novamente para a Alemanha. “Desta vez foi doloroso partir. Deixava dois jovens, num momento delicado. Dois rapazes com quem tinha a maior afinidade. No meu lar, sempre houve muito amor e cumplicidade”.
Não sabia sequer andar de bicicleta, mas acaba por ir trabalhar para uma empresa que se dedicava a este ramo de atividade. Arranjava e entregava bicicletas ao domicílio. Corria bem a vida, quando teve um enfarte. Um momento que marcou, novamente, a sua vida. “O meu Marco ía casar-se, já estava tudo preparado para virmos a Portugal… A cirurgia acontecia nesse dia. Pedi que não adiassem o casamento. A minha Rosália veio e eu assisti ao casamento, às palavras, por telefone. A minha nora arranja sempre solução”, recorda.
Passados dois anos, regressa a Portugal. Enquanto procurava trabalho, o filho Marco pensava em abrir uma clínica. Desde o primeiro dia que é o rosto da entrada quando se abre a porta ao mundo da physioclem. “Apesar de ser analfabeto”, gosto muito das novas tecnologias. Se não sei mexo até aprender. Sinto-me o braço direito do meu filho. Aqui sou pai, avô, empregado… Tudo na mesma pessoa”, refere, feliz.
Ao peito criou uma das netas, entre atendimentos de telefone e outros trabalhos na clínica. “A minha Maria João não se adaptou ao Jardim de Infância. Das 8:30 às 20 horas, carregava-a no canguru, só à hora de almoço é que substituía pelo Marco ou pela Vânia”. Foram cerca de dois anos assim. Na physioclem as manas Maria João e Diana eram os miminhos da casa. Enquanto uma dava os primeiro passos, a outra gatinhava. No momento das mamadas, Carlos Clemente levava a menina mais nova à nora que trabalhava num gabinete nas piscinas de Alcobaça. Entretanto, chega a D. Quina que começa a tomar conta das meninas. 
Há cerca de três anos, face aos horários, decide vender a casa de Valado dos Frades e comprar um apartamento em Alcobaça, que fica perto da casa do filho. “Sempre que são necessários serviços de babysitting, basta descer o elevador. Partilhamos a mesma garagem”.
A physioclem, afirma Carlos Clemente, é uma casa estruturada, firme, com mais de nove mil utentes, só em Alcobaça. “Aqui tratamos toda a gente por igual. Sinto-me orgulhoso por fazer parte desta equipa, que está sempre disponível para fazer mais e melhor”. Daqui a dois anos, pretende entrar na reforma, mas, confessa, que de alguma forma terá de continuar ligado à physioclem. 
A malandrice continua a ser uma das suas caraterísticas. Todos os dias tem de pregar uma partida ou dizer uma “mentirinha”. “Continuo a ser o mesmo malandreco de antigamente. Sinto-me um jovem de cabeça, apenas preciso de praticar exercício físico”.

Concluindo a história.
A alegria da vida encontra-se em pequenos pormenores que, por vezes, passam despercebidos. A alegria é um motor de jovialidade. Manter um espírito jovem faz bem não a si, como a quem o rodeia. O senhor Carlos sabe e sente isso…

Luci Pais